A vida tem dessas coisas…

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Poderia ser um dia qualquer do ano, mas esse dia 15 de Dezembro acaba entrando para a história, alguns por aí comemorando, outros preocupados com o horário estendido por ocasião do natal que se aproxima, outros vendo a banda passar.

Mas esse dia acabou figurando entre aqueles que tremulam acinzentados, nublado e pesados no calendário, se tornou um dia de reflexão e confesso sem nenhum pudor que foi um dia meio triste, daqueles que você se sente como diria Raulzito: um pouco talvez menos gente.

Até então era um dia normal como tantos outros já vividos por mim. Entretanto ao voltar para o expediente vespertino de trabalho vejo algo que poderia ter passado despercebido por alguns, outros fariam pouco caso, outra parcela pífia poderia ficar interessada, mas eu estava além de todos, eu fiquei triste e um tanto espantado. Ao ver a cena meu humor mudou, mordi os lábios e fiquei ruminando em silêncio sobre o que eu vira rapidamente.

Eu voltava o ao trabalho ouvindo um blues do Son House quando vi um senhor já de avançada idade embarcando em seu carro. O senhor é um mero conhecido ao qual por umas duas ou três ocasiões eu troquei meia dúzia de palavras. Mas foram palavras sobre paixões mútuas, nosso papo sempre convergia para a ferrugem no sangue.

Ele proprietário há décadas do seu azulzinho, um DKW Vemag. Ainda lembro que numa das conversas ele me disse que tinha caixa, motor, lataria e peças de acabamento de reserva em casa, praticamente segundo ele, quase era possível montar outro carro com as peças sobressalentes que ele possuía na garagem. Mas eu vi quando passei ele entrando no carro com seu bonezinho habitual estampado no para brisa e no vidro lateral traseiro uma folha A4 impressa com as letras negras VENDE-SE e os telefones para contato. Fiquei péssimo, como ele que devotou tanto amor ao carro dele agora se dispunha a vendê-lo?

Numa de nossas conversas ele disse que não venderia por dinheiro nenhum, que já havia recebido propostas bem generosas mas era o carrinho do coração dele, já estava com ele há tanto tempo e ele o usava sempre que saia e isso era praticamente todo dia, não havia outro carro, esse era o seu carro! Mas o fato é que estava lá: VENDE-SE!!! Fiquei triste mesmo, de verdade, fiquei imaginando o motivo pelo qual ele após tanto tempo tomou essa decisão, se foi algo natural dele ou alguma coisa impositiva para separá-los, teria sido o peso da idade? Não poder mais dirigir? Falta de manutenção não poderia, o carro dele é muito conservado, todo reguladinho, funciona perfeitamente.

Seria então algum desgosto? A necessidade de levantar fundos para uma vida de aposentado mais tranqüila e digna, visto que nossos aposentados têm em geral uma remuneração muito aquém da necessária para sua subsistência, poderia ser esse o motivo? Levantar fundos para algum tratamento de saúde? Não importa o motivo, o que fica de pergunta é se ele vai vender o carro para alguém que vai cuidar tão bem do vemag como ele cuidou por tanto tempo, se esse carro vai ser bem tratado, ter uma garagem adequado, se vai ser respeitado, afinal de contas o carro pega o jeito do dono e vice-versa, como vai ser a adaptação desse carrinho no novo lar?

Me compadeci dele sem saber o real motivo, sem parar para perguntar, apenas eu com meus botões e pensamentos antigomobilistas, engraxados pelo saudosismo. Lembrei de quando eu em meio ao processo de restauração do eu Maverick aborrecia, me chateava e chegava perto de desistir. Nessas horas eu esperava a cabeça esfriar e dava um tempo, me acalmava, respirava e aguardava a idéia da venda sair da cabeça, eu não saberia viver sabendo que ele, meu grande amigo de quatro rodas habitaria em outra garagem e seria cuidado por outra pessoa.

Fiquei imaginando tudo o que poderia estar acontecendo e se passando na cabeça daquele pobre senhor, aposto que não é uma decisão fácil e ele faz isso com uma ponta de tristeza, mas enfim, a vida tem dessas coisas e não saberemos se lá na frente quando elas chegarem sorrateiramente se estaremos preparados de fato para aceitar e lidar com a situação.

De pensar na situação já fico pesaroso, imagina viver e sentir na carne tudo o que se passa nessa realidade brutal e impiedosa.

Não sei qual a realidade desse senhor, pois como diz uma canção da Nóntiêne: ´´Mas não vai saber o que se passa aqui dentro, se eu não te disser, se não conversar comigo, nunca vai me conhecer…´´

Um FORD abraço. Sabugo

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