A grade

Mundo do Rock 012

Dia desses, como incorrigível saudosista que sou, sofri novamente. Sabe quando bate aquele pesar, aquela tristeza, um vazio, você se distancia dentro de seus pensamentos, ou melhor, de suas lembranças e mergulha no passado, assiste o filme de sua vida, relembra, revive, sente tudo novamente. Aí de repente você volta à realidade e compara ela com o filme que viu, pesa o futuro e se vê diante do fato. O problema é que contra o fato, não há argumento, ele existe, está lá.

O fato é que a coisa toda mudou e estamos aos pedaços, somos apenas cacos do que fomos. Refiro-me ao Maverick e a mim mesmo, depois que praticamente longos três anos de restauração, de solda, lixa, polimento, tinta, fio, graxa, pó e toda sorte dos habitantes das oficinas. Meu amigo, está praticamente no fim a restauração, eu bem sei disso, mas é como o final do campeonato, você já não agüenta mais parar em pé e o relógio teimosamente compila contra você fazendo o tempo se arrastar e protelando o derradeiro e ansiado final.

Agora vou me explicar. Outro dia eu fui ver como estava meu Maverick, confesso que ando evitando ir até a oficina visitá-lo, pois me dá um pesar ver ele sem poder andar novamente, faltando retrovisor, sem o capô. Mas eu precisava levar um par de fechaduras para instalar de uma vez. Ao chegar à oficina, avistar meu carro lá, sendo trabalhado, volta a fita dos tempos que andávamos por aí, sempre volta e hoje sem poder andar, me restam as lembranças somente.

Mas voltando ao assunto, entrego as fechaduras e quando vou sair vejo o para choques e a grade do maverick em um canto da oficina e como não vou mais usar nenhum deles resolvo carregar para trazer até minha casa. Enquanto carrego me dou conta de que a grade é de plástico e se ficar na carroceria da camionete junto com o para choques pode acabar sendo atingida pelo mesmo e vir a quebrar.

É aí que resolvo de levar a grade na cabine, junto comigo. Me despeço do Chicão (que é chapeador que está terminando o Maverick para mim) e ganho a rua. Passo a segunda marcha e olho para o lado, no banco está a grade dianteira do meu Maverick, nesse exato momento me volta o filme da vida, das noites de estrada, dos km que percorremos, quanta chuva e serração aquela grade já pegou? Quanta geada se formou e se desfez entre seus vincos, quantas iguais a ela ela viu nas estradas? Quanto pó ela já pegou?

Em meio às lembranças me vejo levando os pedaços que sobraram do meu carro de volta para casa, parte por parte. As que eram até então usadas doravante não mais serão, será que somos assim também, intercambiáveis, substituíveis? Quando ficaremos obsoletos e seremos descartados depois de tanto uso e dedicação?

Não vou deixar essas peças juntarem poeira ou ficarem esquecidas embaixo de uma lona, vou alocá-las uma a uma na garagem em frente ao carro que tão bem elas serviram para que possam ver ele e que também ele tenha contato com elas, pois eram todos um só.

Um FORD Abraço

Sabugo

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