Nem um, nem dois, foram pungentes oitocentos e noventa!

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             Costumeiramente falo de rock, acho até que é uma obrigação nesse espaço, entretanto, vou falar mais hoje sobre automobilismo, e dentro disso, mais ainda sobre autos antigos… E ainda vou ser mais objetivo e falar especificamente do FORD MAVERICK, e sendo assim, vou falar do meu Maverick. Obviamente meu amigo leitor, que haverá rock em nossa conversa, não tanto quanto de costume, mas haverá.

            O título se refere ao número de dias que fiquei sem andar com ele, desde o dia em que resolvemos desmontá-lo para a restauração até ontem (um sábado) quando novamente ele rodou, e pude dirigir ele. Tudo bem que estava aos pedaços ainda, a restauração ainda não foi concluída, faltam algumas coisas, mas ele já roda novamente, isso é o que basta.

Foram tristes dias, afastado do meu velho amigo de estrada, de tantas horas rodadas e tantos litros de gasolina queimada, tantos quilômetros percorridos, amizades feitas, sem o som do seu motor pela estrada iluminada pela lua. Mas parece que como um sonho estranho esses dias estão passando e tornando-se num belo despertar, sonolento, lento, mas vivo, cheio de energia e resplandecente.

Ficar mais de dois anos sem andar com carro antigo não foi fácil, especialmente sem andar com meu Maverick, sem conferir o óleo e a água, sem calibrar os pneus e abastecer ele, sem dar banho e encerar meu carro… Mas eu devia isso a ele e, se não poderia andar com ele, não andaria com mais nenhum outro carro antigo, essa minha penitência e eu a cumpri resignadamente. Confesso que não foi fácil, mas era preciso. A minha relação com o Maverick não é apenas de dono, vai além, é uma interação com o carro que me foi culto de desejo desde meus oito anos de idade, é como se fosse uma extensão de mim, parte do meu ser, extrapola o materialismo, ele não é só um veículo, ele tem sentimento, personalidade, sem falar que é um grande camarada.

Quando o vi chegando da elétrica e rodando, ainda faltavam vidros, capô, calotas, maçanetas nas portas, bancos, forração interior, espelhos, pára-choques, grade, geometria, alinhamento, regulagem de carburador, de ponto, mas mesmo assim ele rodava bravamente.

O eletricista deixou ele no pátio da loja e foi embora, desci até em casa, almocei, voltei até lá com gasolina, com as borrachas de vidro e com os vidros e mais uma caixa de ferramentas. Abasteci ele, ali mesmo e meio triste por ainda ver ele parcialmente montado, confesso que estava desanimado mesmo… Embarquei nele, amarrei a porta para não abrir, usei a caixa de ferramentas como banco, coloquei a chave na ignição, respirei fundo e quando dou a partida, o motor gira por um instante, dando a impressão que não iria pegar, mas pega!

Nesse instante meu coração volta a bater, meu sangue ferve e o mundo todo se resume no ronco do motor, no contagiros mostrando as RPMs, a pulsação do velho Geórgia e sua força… Novamente volto a ser eu mesmo com meu amigo de estrada, meu fiel companheiro de quatro rodas. A magia acontece, o pé desce, a descarga estremece e os pneus cravam no chão dois riscos negros de borracha! Como é bom sentir isso novamente depois de tanto tempo! Ainda com a adrenalina alta ganho a rua, ao dobrar a esquina me vem de estalo uma música em mente: It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll) – AC/DC, isso mesmo, lembrei da gaita de foles quando virei a esquina!

O Maverick por si só é um carro que chama a atenção, mas o meu, em especial na ocasião estava chamando mais ainda, por estar ainda em fase de montagem e talvez por eu tentando proteger a pintura, ter colado papel pardo em volta de sua lataria. Foi nessas condições que eu passei por um antigo professor da faculdade que ao me ver, me acenou e sorrindo balançou a cabeça como a dizer: não, eu não acredito nisso.

Cumprimentei ele cordialmente e ao me dar conta do fato do que ele estaria pensando lembrei da letra de Highway Star do Deep Purple. E nesse turbilhão de pensamentos chegando na avenida da oficina onde eu levaria ele, mais um rock passa pela minha cabeça, dessa vez, um nacional My Way do Camisa de Vênus, sim pois rolou um filme em minha cabeça de todo esse tempo afastado do Maverick, entre oficinas, loja de peças, internet, garagem vazia e solidão, não foi fácil!

Ao chegar na oficina um amigo passa por mim, faz a volta e retorna para conversar, à essa altura eu já estava encostado no muro a pé, e com o Maverick estacionado em uma rua transversal. Foi justamente sobre o Maverick que ele me perguntou ao desembarcar de seu carro, sorrindo eu mostrei onde ele estava. Meu amigo me parabenizou pela força de vontade e dedicação, inclusive pediu para escutar o ronco dele. Claro que atendi ao pedido, afinal de contas ele é um apreciador de autos antigos. Depois disso deixei o Maverick na oficina, descarregamos os vidros e voltei para casa.

Ao final do dia eu estava cansado, mas imensamente satisfeito, grato por voltar a andar com meu carro, mesmo que só por alguns instantes, mesmo com ele pela metade, mas por ter sentido a vibração de outrora quando rodávamos sob a lua, vendo ela do retrovisor e com o vidro baixo sentia o sereno da noite misturado à canção do motor tendo os faróis como os olhos. Fui deitar e em oração cantei a canção do Iggy Pop – The Passenger agradecendo por reviver a experiência de andar com meu Maverick e acreditando em dias melhores a bordo dele, com ele completamente renovado.

Tudo isso pelo amor ao carro sim, e porque tenho ferrugem no sangue!

 

Um Ford abraço

 

Sabugo

 

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